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" A Crítica"
O Registro do Social
Cármen Lúcia Dantas
Depois da geração 30, consagrada pelos valores que despontaram em Alagoas, no campo
sobretudo da literatura, e que mais tarde muitos deles alcançaram notoriedade nacional, a
década de 70 representou outro momento de fertilidade cultural com o surgimento de um
grupo de jovens voltados para a poesia, o cinema , as artes plásticas e as artes cênicas.
Foi a época efervescente dos Festivais de Marechal Deodoro e de Penedo, com a presença
maciça de talentos que desabrocharam em nosso meio e que, a exemplo da geração de
Aurélio Buarque, orgulham a história da cultura alagoana como: José Geraldo Marques,
Beto Leão, Celso Brandão, Ronaldo Andrade, Homero Cavalcante, José Márcio Passos e
tantos outros.
O hoje quarentão Juarez Orestes Gomes de Barros foi mais um destes "meninos impossíveis"
que, quase adolescente, se revelou nos anos 70, nas artes plásticas de nosso Estado.
Desde cedo, Juarez optou por uma temática de cunho sócio-político, bem fincado nas raízes
da Cana-de-açúcar e no cenário humano que povoa essa estrutura. Assim, o meio rural é
visto, não sob o ponto de vista lírico, mas com forte apelo de um chamamento veemente aos fatos.
Passados tantos anos, a feição fundamental da pintura desse artista continua a mesma,
diferindo apenas no aprimoramento técnico, que tem sido apurado com o tempo. Na sua
cuidadosa coerência, permanece o gosto pela aparência popular que esconde as armadilhas
da intenção crítica.
A produção, impregnada por forte atmosfera local demonstra o estímulo que a ambiência
física e social exercem no espírito e nos sentidos do artista que vai direto ao encontro do
cotidiano da vida agrária.
Ao abordar temas em que acentua as pesadas condições do trabalhador camponês, a mulher
é foco da sensibilidade de Juarez ao denunciar a condição discriminatória com que é tratada
e subjugada. A figura feminina é exposta na vulnerabilidade que lhe é imposta pelo poder e
pela força, que a limita ao circuito da trabalho e da reprodução.
Apesar da simplificação formal, as figuras desse artista deixam passar uma expressividade
de tristeza atavicamente relacionada à exploração do meio em que vivem.
Esse choque expressionista, alcançado pelo efeito da apatia, da ausência da própria expressão facial, é uma qualidade que se destaca na pintura de Juarez. Suas figuras são espectros de seres que se articulam em laboratórios vivenciais de dor e de perdas, aliviados em seus queixumes pelo conforto da fé.
Quanto a estrutura plástica, a composição é controlada e obedece a planos que resguardam o espaço, definindo-o pela solidez e estabilidade dos volumes. Suas telas, a pricípio de porte regular, vêm aumentando de tamanho e chegam a atingir, hoje, a dimensão de papéis, com incisiva peculiaridade no emprego das deformações. Estas distorções formais contribuem para a fixação dos estigmas da fome, da miséria e da servidão que se sobrepõem nas composições deste artista.
As formas chapadas são iluminadas pela presença constante da cor pura de onde ele extrai os recursos essenciais em que fundamenta seu trabalho: não precisar da densidade cromática, nem do exaspero da expressão para alcançar a caracterização trágica do homem. Um dos pontos altos de sua criatividade é, sem dúvida, o painel que registra, na pintura, a morte do líder sindical alagoano José Carlos, em 1991, amigo próximo do artista.
Com um percurso de quase 30 anos de pintura, a análise da obra de Juarez Orestes assegura-nos afirmar a certeza da fidelidade aos valores plásticos vinculados aos conteúdos sensíveis da realidade do homem, em luta pela sobrevivência de sua integridade física, mas também de seus princípios ideológicos.
Neste itinerário, o artista vem se mantendo, todavia , ausente de exposições e de qualquer outra forma de evento que venha a expor seus quadros ao público. Isso não quer dizer que ele esteja em fase de hibernação. Muito pelo contrário. Seu momento é de produção quase catártica e de boa qualidade. Talvez ele esteja nos preparando uma surpresa: uma individual ou uma retrospectiva, quem sabe? Tempo e talento é o que não lhe faltam.
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A FORÇA DO ESTILO
Lincoln Braga Vilas Boas
A HISTÓRIA DAS ARTES PLÁSTICAS em Alagoas é uma colcha de retalhos. Mas, aos poucos, vai se montando, principalmente nas duas últimas décadas. O que se faz lacuna está escondido no fundo de muitos baús e porões. A afirmação de Gláucia Lemos de que se trata de um vasto campo a ser trabalhado afeta uma espécie de mistério que se presta a uma decifração. A história, desse modo, deveria se valer de todo o esforço de garimpagem para trazer à luz o que se esconde nos porões e nos baús, ainda cerceado pelo cultivo dos pré-julgamentos e das superstições de segunda mão, que descambam para o diagnóstico ideológico e esquecem o rigor ético. Vale lembrar sempre esta inserção.
Só recentemente, insisto, vimos laboriosas tentativas de montagem da colcha. Com laboriosas não estou sendo irônico.Temos o trabalho de Célia Campos, por um lado, e o de Ricardo Maia, por outro. Mas cada um em sua especificidade. O primeiro, apesar do mérito, escorrega em generalidades, correndo o risco de tornar a história uma peneira. O segundo, na verdade, se vale de uma outra história e trata da natureza específica de um movimento restaurador das Artes Plásticas em Alagoas, visivelmente em Maceió, o Vivartismo. Maia explora um campo representacional, interpela concepções de arte pictórica, revelando intenções mais escondidas. Trata-se de uma via mais interessante, pois destampa o invólucro de uma mentalidade e faz com que ela apresente o seu show. Contraditório, é verdade, mas com um tempero que altera o sabor de uma historiografia oficial e deixa entrever, afinal, que a produção pictórica no Estado de Alagoas tem, como autores, cabeças pensantes, mestres inequívocos, artífices inconfundíveis. Em especial, pelo estilo e, ainda, pela resistência.
É por este ângulo privilegiado - que coloco acima, como introdução da qual não pude escapar- que se apresenta a mostra individual de Juarez Gomes de Barros. Nela está demonstrada a força do estilo e a versatilidade própria de quem não escapa à contemporaneidade. Também resgata - esperançosamente como um primeiro da fila do esconderijo de uma produção pictórica que pelo menos, encaixa perfeitamente numa lacuna. Pode-se percorrer, com a visão, as graduações, as nuanças de um estilo, desde as incursões técnicas à utilização de materiais às vazes bem exóticos. Porque a contemporaneidade demanda o exercício da transformação do espaço, do gênero, sobretudo da natureza transgressiva e diversa da arte. A pintura e o desenho se apresentam em sua mostra como uma prova do que o artista dispõe. E que não se pense em experimentação mas num percurso.
Entenda-se, portanto, que se assinala neste percurso certa originalidade na exploração de um background orientador de seu traço e de suas composições. Não se trata de um artista descuidado de sua formação. Assim, desde as figuras de um impressionismo vago às tentações abstratas, submete o observador a algumas dúvidas. Todavia, não aquelas onde se interroga uma filiação. Questiona-se como o artista pode imprimir sobre um fundo tais e quais efeitos. Aí se encontra a marca do artífice, o dom de fazer ao olho o que a mente não enxerga. E tantos se poderão perguntar muita coisa. Para se ultrapassar as tendenciosidades do gosto deve-se se curioso, tentar encontrar as respostas corretas.
É por essa via que podemos entrever uma arquitetura, mas uma arquitetura de idéia que se organiza em cada uma peças da mostra. Assim se faz certa a aproximação platônica. Desde uma forte profusão de cores vivas à neutralidade do cinza e do preto, deparamo-nos não só mente com estados de espírito, mas com dados de significação devidamente estruturados pelo artista. Pouco a pouco ele traduz uma concepção, a visão ou uma experiência e as imprime. Entretanto, com excessiva modéstia.
E é com a mesma modéstia que Juarez Gomes de Barros está se propondo trazer a público somente uma parte de sua produção que data de 1968 a 2001. trata-se de um pequeno conjunto, de uma parte mesmo. Mas de veras significativa. Seja porque resgata algo escondido da história das Artes Plásticas no Estado, seja porque revela o artista.
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Cármen Lúcia Dantas
Juarez Orestes, depois de sete anos sem expor individualmente em Maceió, traz a público um conjunto de obras que, embora não chegue a ser uma retrospectiva, permite ao espectador uma leitura seqüenciada da sua produção artística de quase três décadas.
A mostra traça um percurso amadurecido, tanto nos elementos estruturais, quanto nas soluções plásticas, facilitado sobretudo pela fixação do artista em um tema única: o social agráriuo.
As pesquisas, as experiências formais e a condução da sensibilidade criativa de Juarez sempre estiveram voltadas para o campo, não como cenário, mas como contexto das rígidas relações sociais, onde só para o humano converge o seu olhar atento e perscrutador.
O artista transita entre o expressionismo e o surrealismo, com tamanha habilidade, que suas figuras alcançam uma forte expressão simbólica de rostos cansados, traços firmes, mas vincados de pele seca e áspera como o solo em que pisam.
Em contraponto a essa paisagem humana, a linha na pintura de Juarez se flexiona e corre sinuosa e maleável, arredondando e modelando formas em percurso que celebra uma sensualidade idealizada, retorcida pelas armadilhas sociais que o tema impõe.
Com esta exposição, Juarez Orestes reafirma a sua presença na arte alagoana e mostra que, nos anos de aparente reclusão, a alma do artista estava em plena ebulição, alçando sempre vôos criativos à altura de sua fértil imaginação e da sua enorme sensibilidade.
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